desenho crayon sobre cartão
A denúncia
Uma grande mesa com tampo de
granito, que antes ficava na cozinha, agora era sua e estava bem instalada com
uma confortável cadeira, onde ele se sentava todos os dias e despejava no
teclado tudo que estava guardado em sua mente fértil. Uma poltrona que ganhara
de seu filho num dia dos pais, e que já estava fazendo seu décimo aniversário,
mas sua cuidadosa esposa forrou-a com
uma capa de um tecido grosso azul –marinho, almofadas de um azul mais claro e
verde abacate, ficou parecendo nova em folha, dizia ele.
Seu olhar vagava pela janela,
a paisagem que desfrutava da janela de seu escritório, era de um barranco cheio
de flores silvestres, brancas, amarelas e vermelhas, mais atrás um muro alto
escondia uma casa, da qual ele só via o telhado e ouvia as vozes, ora de homem,
ora de crianças, ou feminina.
Aquela pequena visão
despertava a curiosidade de Jaime que ficava imaginando como seriam e como
viviam aquelas pessoas, tão barulhentas e na maioria os sons eram de brigas,
choros e ameaças da voz masculina, eram cada dia mais frequentes, a ponto de
atrapalharem sua concentração. Neste caso ele fechava a janela, colocava uma
música clássica para tocar e tudo voltava ao normal.
Era segunda- feira quatro
horas da tarde, Matilde, sua mulher, veio com o cafezinho que acabara de coar,
e colocou na mesa para ele, sentou-se na poltrona e ficou ouvindo a música de
Beethoven, enquanto ele concentrado, batucava no teclado talvez uma nova
crônica ou outra história, a Ode to Joy já quase no fim, ambos saltaram de seus
assentos, ao ouvirem o grito vindo da casa de trás do barranco, um grito de
mulher, uma espécie de urro masculino, e logo depois um profundo silêncio.
Jaime desligou o som, e ambos ficaram preocupados prestando atenção, mas nada
mais se ouviu. Dia seguinte Jaime e Matilde saíram para caminhar, mas a
intenção era passarem em frente à casa do barranco. Antes ele olhara o mapa do
bairro localizou sua rua, e a que ficava justamente atrás do barranco, fez
mentalmente o caminho que iriam percorrer e foram, era uma pequena travessa
aladeirada com arvores, terrenos vazios e duas casas apenas uma bem afastada da
outra. As duas completamente fechadas ninguém à vista, nem uma criança, nem um
cão, ninguém.
-Deve ser a hora, comentou
com Matilde, logo mais à tardinha voltamos, essa hora criança está na escola e
adultos em seus trabalhos. –
- Acho bom deixarmos isso pra
lá, se tivesse acontecido algo grave, escutaríamos a ambulância, ou a polícia
com suas sirenes. E o que podemos fazer, não conhecemos as pessoas que moram
aqui?
- Se você não quiser não vem,
eu virei, quero descobrir o que houve. Deve ter sido algo grave, só nós
ouvimos, por causa da distância da outra casa desta rua, que até parece
desabitada.
Matilde desistiu, mas Jaime
não, todas as tardes vestia seu traje de ginástica, e lá ia ele, sempre o mesmo
deserto, rua vazia, um mosqueiro que a cada ia era maior por aquelas bandas, e
um mau cheiro de dar nojo.
Naquela manhã Jaime saiu com
sua roupa de caminhada, e umas luvas de procedimento, que sua mulher usava na
limpeza da casa e as comprava em caixas, escondeu um par nos bolsos, mas sua
intenção era outra que não a de caminhar, foi até a casa atrás do barranco,
forçou o pequeno portão, pegou uns tijolos que estavam empilhados no quintal
levou-os até a janela do que ele achava ser a cozinha da casa e espiou para
dentro, o mal cheiro vinha de lá, mas não conseguiu, ver nada de suspeito,
apenas moscas, forçou a porta mas ela não se mexeu. O mal cheiro era
insuportável por ali. Meio frustrado com sua investigação falha, guardou as
luvas, que pretendia jogar fora bem longe dali tomou uma decisão.
Foi até a um telefone público,
ligou para a delegacia e deu uma falsa denúncia.
_Preciso que venham na rua
tal, número tal, houve um assassinato lá, e a pessoa está trancada morta,
dentro da casa, como eu sei? Eu vi, passei por lá e vi, os urubus já estão
rondando a casa e as moscas. Não, não é trote. Tá meu nome é João da Silva,
onde moro? Perto dali, só estava caminhando por ali, meu endereço? Rua tal,
número tal. Sim vou estar lá esperando a polícia, obrigado.
Jaime foi para casa, e correu
para seu escritório, abriu a janela de par a par e ficou prestando atenção aos
sons, não demorou escutou a sirene da polícia, algumas vozes, algumas
marteladas, uns impropérios, palavrões variados, momentos depois o corpo de
bombeiros, as sirenes se foram a tarde caiu, a noite chegou e Jaime, de cara
colada na TV, esperando alguma nota nada, na manhã seguinte, correu ao
jornaleiro, comprou o jornal, e finalmente lá estava a notícia: “ Homem encontrado morto, já em estado de decomposição
em casa abandonada, na rua tal, número tal, sem identificação, até o momento...
--Como homem! Quem gritou foi
a mulher! Matilde, Matilde olhe só a notícia da casa do barranco...—
Jaime não soube de mais nada
a respeito do crime, muitos dias e semanas depois, a conclusão para sua
incógnita surgiu num noticiário da TV.
Mulher matou amante com duas
facadas, abandonou o corpo, trancou a casa e fugiu com os filhos, alega que
cansou de tantos mal tratos e aos filhos, o corpo do homem, já em estado
avançado de deterioração, foi encontrado graças a uma denúncia anônima por
causa do mal cheiro, moscas e urubus...
Matilde olhou para o marido e
com um único comentário falou com olhar de aprovação a denúncia anônima tem o
nome de Jaime.
Ele sorriu, e disse daí vai
sair um romance, minha querida. Desligaram a TV e foram dormir abraçadinhos.
Fim
Léah