Minha vida minha arte
Houve um tempo em que meus parentes diziam:
“-- Ser pintora é profissão de gente rica, pra que ficar
pintando florezinhas, ou paisagens é só olhar em volta as paisagens estão aí
com florezinhas e tudo, perda de tempo e dinheiro, arranje uma profissão de verdade...”
E eu sonhava em pintar, mas nada que eu fizesse era aceito ou visto como
arte.
(óleo sôbre tela de madeira 22x14)
Menção Honrosa
Estudei para outra profissão bem burocrática e trabalhava, mas
eu odiava, e nas horas vagas num cantinho
qualquer da casa pintava meus quadrinhos e pendurava-os pelas paredes da casa
de meus pais, porém só eu os apreciava.
No aniversário de uma parenta, numa época que eu havia
perdido o emprego, e não tinha dinheiro para comprar nada, resolvi caprichar num
quadro pintado em tela de madeira (Eucatex), e dei-lhe de presente.
A presenteada perguntou o que era e num obrigada muito seco
quase o jogou sem desembrulhar ao lado de todos os outros que estavam bem
expostos num aparador, somente o meu permaneceu ali até o final da festa
embrulhado, bem escondido no papel de presente.
Meses depois precisei ir até sua casa e vi o quadro em baixo
de um vaso de plantas semidestruído pela água e pela terra.
Senti-me tão humilhada e envergonhada que fiquei muitos anos
sem querer olhar para tintas ou pincéis.
Um dia já depois de casada olhando para as paredes de minha
sala sem um quadrinho, vazia, fria, voltou a vontade de pintar e em pouco tempo
a sala estava mais alegre e viva. Incentivada
por meu marido resolvi dar um basta naquela “frustração ou complexo de
inferioridade,” recomecei a estudar e entrei para a escola de Belas Artes, mas aquele complexo não me largava, tinha medo
de entrar em exposições, e ser rejeitada
foi outra luta interna até conseguir.
Outra vez meu marido esse meu grande incentivador
convenceu-me a experimentar e expor dois
quadros que foram premiados, com medalha de prata e de bronze
(Óleo
sobre tela –Medalha de prata- acervo)
(Óleo
sôbre tela- medalha de Bronze acêrvo)
Entretanto ir a vernissages era um sacrifício inominável, presenciava
a bajulação de outros pintores para com os juízes, queriam vencer a todo
custo, e aquelas atitudes me agrediam me
desiludiam e aumentavam minha timidez, e resolvi levar os quadros para as exposições, mas não
ia às vernissages abandonei aquela fogueira de vaidades na qual eu não
conseguia me enquadrar. Ganhei vários prêmios e enquanto isso uma amiga vendia meus quadros, pois eu não
levava o menor jeito para comercializa-los.
Aí meu marido foi transferido para uma pequena cidade do
interior onde tudo era difícil e muito simples, era uma vida muito diferente da
que eu vivia no Rio de Janeiro, lá eu não conhecia ninguém e minha principal
atividade era cuidar de nossa casa e de minha mãe doente. Ficamos lá dois anos,
sempre que podia pegava o carro e vinha para o Rio onde tínhamos uma casinha na
praia e comprava material e voltava e pintava nas horas vagas. Foi uma fase muito
tensa e ao mesmo tempo de pasmaceira naquela cidadezinha.
De lá desta cidadezinha fomos transferidos para outra igualmente
pacata, com valores bem diferentes da grande cidade que é o Rio de Janeiro e
mais dois anos de fugas para o Rio e rezando muito para conseguirmos voltar
definitivamente para nossa cidade, e graças a Deus conseguimos!
Aqui chegando nos
envolvemos na construção de nossa casa e as pinturas ficaram guardadas
aguardando meu pequeno atelier ser construído na casa.
Um dia surgiu o convite de uma amiga para eu ensinar umas
crianças carentes a pintar eram de uma escolinha onde ela era diretora.
Quando eu estava bem feliz veio a prefeitura removeu a escola para outro
bairro trocou a diretora, enfim acabaram as aulas.
Depois com meu
atelier já pronto resolvi dar aulas para umas mulheres de uma comunidade pobre
e aí uma vez por ano elas e eu
organizávamos um leilão para os trabalhos
delas e dava-lhes o dinheiro. Embora elas gostassem mais de trabalhos
artesanais e de reciclagem, foi um bom tempo, mas, por motivos de saúde de meu
marido tive que encerrar essa atividade também.
Hoje está tudo bem, meu marido com saúde, não entro mais em exposições, e nem dou aulas, entretanto nunca mais deixei de
pintar, posto todos os meus trabalhos no
meu blog e uma vez por ano troco todos os quadros que estão na minhas paredes, de vez em quando alguém me encomenda um quadro
ou presenteio alguém, ou simplesmente mando-os para o bazar da igrejinha aqui
perto de casa.
O importante para mim é pintar quando quero e tenho
inspiração, é ter vencido todos os empecilhos, ter conseguido valorizar a
opinião de quem realmente me respeita e ama.
Foi difícil, pois tem coisas que ficam como ranço em nossa
mente, mas venci e me libertei
daqueles complexos inúteis.
Mas aquela parenta quando vem a minha casa não tece nenhum comentário sobre meus quadros,
aliás, ela nem olha para os que estão nas paredes por maior que eles possam ser,
prefere olhar para o chão, para uma cadeira ou para qualquer outro objeto,
chega a ser engraçado! Percebo porque
sou observadora, mas não me afeta isso agora é um problema só dela.
Léah





buque de flores 




