
"Inverno" (óleo sobre tela 40 x 40)
Era um tempo muito difícil, muita pobreza era usual andarmos de tamancos, sapato só para passear uns vestidinhos de tecido barato feitos por minha mãe que ficavam assim como o par de sapatos guardados a espera de que surgisse um passeio qualquer, que também era raro.
Nossos tamancos, meu e de minhas irmãs eram comprados no armazém da esquina. Um dia meu pai trouxe não sei de onde um par de tamancos com sola de madeira mas em cima era feito com pele de cabrito, uma lindeza!
Aquele sim era um tamanco digno de ir a qualquer passeio, ficou a espera num pequeno armário junto com o par de sapatos, mas todos os dias eu ia visitá-lo, alisá-lo experimentá-lo.
Perguntava sempre a minha mãe:
- Posso usar o tamanco novo hoje?
-solamente cuando el zueco viejo terminar (Somente quando o tamanco velho acabar) -
Por mais que eu arrastasse aqueles tamancos velhos e odiosos na calçada áspera ele resistia, inteiro, intacto, puxava a correia dura e amarela para ver se arrebentava, mas que nada, eu achava que ele tinha inteligência e sabia das minhas torpes intenções de acabar com ele!
Acabei cansando desta luta e envolvi-me com outra preocupação que era ir a casa de meu vizinho que tinha um velocípede onde eu me fartava de pedalar e ele menor que eu não sabia usar os pedais do brinquedo só andava no bicho se fosse empurrado, ficava esperando que eu me dignasse a empurrá-lo
Numa dessas empurradas meu tamanco arrebentou! Ora viva!
Larguei velocípede, meu vizinho chorando pois havia trocado com ele:
- Dou três voltas e depois te empurro duas.-
Só que o tamanco arrebentou na primeira, e eu corri pra casa em busca do tamanco novo.
Decepção! Meus pés cresceram e os tamancos não!
Fui com minha mãe até o armazém da esquina aos prantos comprar outro tamanco igual ao que havia arrebentado minutos antes. E aquela lindeza pela qual tanto esperei foi para uma vizinha menor que eu, com pés menores que os meus, e ela nem ligava para eles eu os vi muitas vezes jogados no quintal na chuva.
Naquela época o fato me causou sofrimento e decepção, mas eu era criança e não tinha noção do que realmente estava acontecendo. Entretanto tudo que acontece em nossa vida serve como ensinamento. Dentro de alguns limites de bom senso viver o presente com o que temos conscientes de que os bens materiais estão aí para nos dar prazer e se o temos devemos usá-los usufruir deste prazer, ao invés de ficar guardando para o futuro que nem sabemos se teremos.
O essencial é viver o presente e deixar a vida fluir.
Texto Léah MorMac