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quarta-feira, 23 de maio de 2018

DIÁRIO DE BORDO 2- Sonhos meus.

óleo sobre tela 40 x 25- caminho na Galicia
   Às vezes sonhamos com coisas que realmente são difíceis e ficamos martelando naquele sonho e gastamos nossas energias nele, e quando finalmente ele se concretiza o coração palpita mais rápido, o sorriso vem fácil, a vida fica cor de rosa.
 Já tive um sonho desses e um dia ele aconteceu, mas desmoronou, aliás desmoronaram com ele.
Acho que faz parte da vida sonhar, querer ter alguma coisa que nos encantam, que nos dão prazer, nos realizam, e como sou uma sonhadora de carteirinha, vou continuar assim, não se vive sem sonhos.
Mas não posso esquecer que existem as pedras que aparecem para travar ou frustrar a realização deles,  ou  atrasá-los, tudo depende do tamanho da pedra.
Foi bem assim, eu sonhava em fazer uma escola de arte, e quando voltamos para o Rio de Janeiro, esse sonho cresceu, começamos alugando um apartamento para morarmos até resolvermos onde e o que comprar, casa ou apartamento, e no fim compramos um terreno. Aí comecei a desenhar meu sonho, tentando mantê-lo meio secreto, todo papel que eu pegava lá ia eu desenhar meu espaço, ele teria que ser claro, e com janelas de onde eu veria as arvores e o céu.
Tantas coisas aconteceram, que ele foi ficando achatado lá dentro de meu coração e imaginação.  Depois de alguns meses comecei a ficar feliz, por conseguir ver nossa casa se erguer, apesar das burocracias da prefeitura, dos construtores incapazes e seus erros, do arquiteto que nos roubou e tantas outras decepções!
Depois de noites sem dormir, algumas lágrimas escondidas eu fiquei feliz quando tudo quase acabou, restou só terminar o terraço à espera de piso e instalações do banheirinho, isto ficou para quando o dinheiro desse. Meu marido, carinhosamente me convenceu de que, ali naquele espaço inacabado poderia ser o que eu tanto queria, pelo menos para começar, e este começo seria e foi mais ou menos um ano depois. Meu entusiasmo começou a voltar terminamos    o tal banheiro, instalamos um tanque para lavarmos os materiais, uma pia, uma mesa enorme, cavaletes, prateleiras, e não poderia faltar meu aparelho de som para músicas clássicas que sempre são inspiradoras. Por fim, consegui oito alunas e um aluno. Fui na prefeitura legalizar a situação, apesar de ser dentro de minha casa e ser meu ateliê eu sabia que teria de licenciar. Acreditei na sorte, mas antes da licença sair apareceu um fiscal com cara de quem queria propina. Notei pelo jeito dele procurando defeitos onde não tinha, ‘buscando chifre em cabeça de burro.’

Foi a chegada da “pedra” em cima do meu sonho, sabem o que ele alegou, para acabar com tudo?
Que como eu tinha alunas e um aluno teria que ter dois banheiros um masculino e um feminino.  Foi uma situação muito tensa, fiquei com muita raiva, engoli em seco, recebi a multa, fui na prefeitura e paguei, voltei umas cem vezes, para ver como poderia resolver, mas encontrei uma verdadeira máfia!  Desisti de tudo quando descobri que meu marido estava com um grave problema de saúde, que foi tratado e curado. Quando tudo se acalmou, desisti de dar aulas em casa, não suportava a ideia de voltar à prefeitura.
Ai comecei a dar aulas de pintura e artesanato de graça para umas pessoas de uma comunidade, numa sala de uma igreja católica. Isso durou dois anos, três dessas pessoas iam lá em casa, pois a sala da igreja era pequena.
Um dia parei, precisei parar tudo, por outros motivos...
 Agora está tudo bem. Independente das pedrinhas ou pedregulhos, continuo sonhando outros sonhos, outros desejos.
Afinal,  o tempo é um grande remédio, tudo cura e resolve, na vida temos dias de inverno e dias de primavera, que eles venham com muitas flores para enfeitar os sonhos .
Léah                                                          FIM

sexta-feira, 4 de maio de 2018

JULGAMENTO

painel em acrílico 1,00cm x 0,85cm

O salão de festa do casamento de Alexandre lá em Buenos Aires era amplo e bem decorado com as mesinhas brancas e muitas flores pessoas de todas as idades, mas o que achei mas interessante foi o cuidado que tiveram com  as  pessoas bem idosas reunidas numa mesa maior, com cadeiras mais fofas, 
Fui conversar com estas senhorinhas, onde se encontravam algumas que eram minhas parentes. a princípio nossa conversa  foi sobre a Espanha,  da vida de minha mãe aqui no Brasil, da ida daquelas espanholas ali que optaram por Buenos Aires, a conversa estava ótima, até o momento em que um ‘mozo bicha’ garçom gay, educado e muito atencioso chegou até a mesa oferecendo doces. Aceitaram prontamente e assim que ele se afastou, começaram a praticamente esconjurar o rapaz!
-Gente, porque estão fazendo isso, achei que ele foi tão educado!
-Mas é bicha, e isso é contra as leis de Deus, você não acha?
-Sinceramente não, contra as leis de Deus é julgar,   
-Você acha que Deus aprova uma vida de pessoas sem moral assim?
- Deus nos dá graças e penas tudo depende de algo muito além de nossa compreensão e Isso para mim não é ser imoral, ele nasceu assim, são as penas dele. Eu acredito que exista mais de dois sexos neste mundo. 
-Não, não isso é imoral.
-Imoral para mim representa falta de caráter, ser corrupto, enganar pessoas, roubar. Deu-me vontade de acrescentar ‘julgar’, mas me contive, se não estaria como elas julgando-as. são muito antigas com princípios e preconceitos  arraigados, não mudam mais.
- Você fala isso por não ter lidado com nenhum gay, falou uma das menos velha, que se manteve mais calada até então e achei que estava discordando das outras.
-Já lidei sim, quando estava procurando arquiteto para construir minha casa, na qual não moro mais, contratei um que não era gay, e que tive de processá-lo, de tanto que me roubou e fez tudo errado. Depois da tempestade passar contratei um casal de bichas, também arquitetos que se comportaram lindamente e fizeram tudo dentro da lei. Há pessoas imorais e éticas, decentes e indecentes, independentes do sexo, cor, ou nacionalidade.
-Você é moderninha, mas não pensaria assim se seu filho fosse bicha.
Se meu filho fosse bicha eu iria amá-lo mais do que amo, por causa dos preconceitos que ele enfrentaria e sofreria muito. Você não amaria o seu filho se ele fosse gay, perguntei?
-Não eu o mandaria para fora da minha casa.
- Eu fiquei chocada, mas pensei na educação que tiveram, no tempo em que viveram,  e só pude  lamentar muito por saber que carregam este preconceito, como se fosse uma mala nas costas.   Fui salva pelo meu marido que me levou para dançar, mas no momento em que começou um tango  a maioria continuava dançando uma mistura de passos malucos, mas ninguém abandonou o salão, teve até samba, argentino gosta do Brasil e  nos divertimos muito, enquanto as velhinhas retrogradas ficaram  ranzinzando nas cadeiras fofas.  
Léah                                                      FIM