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quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

A Audição

óleo sobre tela, "o vaso e a rosa"
Susana tinha um vestido de festa, que ela ingenuamente achava lindo, era vermelho com listinhas brancas bem fininhas, as nervuras entremeadas com rendinhas na frente, davam um enchimento a figura magra da menina de dez anos.
Marli sua amiga e vizinha, era rica e aprendia, por vontade de sua mãe a tocar acordeom, ela mesma detestava, não fazia parte de seu sonho ou vocação, e invejava Susana por ser pobre e portanto não podia nem que quisesse aprender a tocar nenhum instrumento, mas o fato é que ela a Susana bem sonhava em aprender a tocar piano, mas era só um sonho que ela fantasiava e batia os dedos na mesa imaginando ser um piano e ela tocando para uma plateia que a aplaudia de pé.
Um dia Marli veio com um convite para Susana, era fechado com um lacinho de fita cor de rosa, escrito em letras douradas os nomes de todas as crianças que iriam se apresentar na audição na escola de música, e ela poderia ir, afinal tinha um vestido de festa que usara no natal e ano novo, feito por sua mãe, que o lavava e pendurava num cabide no guarda-roupas, com a advertência de que ele era só para festas.
Chegou o grande dia ansiado por Susana e detestado por Marli, o vestido vermelho de listinhas brancas saiu do guarda-roupas, o cabide vazio, lá ficou balançando no armário à espera do único vestido.
Susana feliz e ansiosa, sua mãe prendeu seus cabelos em duas tranças com laços de fita de cetim, e em sua ingenuidade Susana se achou chique.
Marli, suas irmãs a mãe e Susana, entraram no carro e rumaram para a escola de música.  Marli estava com um vestido vaporoso de tule que a fazia parecer uma fada, era o que Susana achava e não cansava de admirar aquela belezura de vestido, seus sapatos pareciam de boneca eram cor de rosa como o vestido, Susana tentava esconder inutilmente seus pés com sandálias já arranhadas feitas de couro de barriga de boi, segundo ouvira sua mãe dizer, Marli e suas irmãs usavam pulseira de plaquinha com seus nomes gravados, brincos de bolinha de ouro, anel com pedrinhas que brilhavam!
Chegaram à escola de música, adultos procurando seus lugares na plateia. As musicistas foram por outro corredor com seus instrumentos.
 No palco quando a cortina abriu Susana achou que assim deveria ser a entrada do céu. O teto alto com estrelas pintadas, que brilhavam com o reflexo do lustre enorme, no fundo um cenário com pássaros e flores. Um piano no canto e todas as crianças vestidas como fadas umas de azul, outras de rosa os meninos pareciam príncipes, mais à frente uma cadeira solitária, para o musicista se apresentar na sua vez, e mais atrás todos sentados esperando.
Susana encantada com toda aquela beleza, se o céu fosse assim não se importaria de morrer naquela hora, pensando melhor, não poderia ir para o céu com aquele vestido vermelho, teria que estar como uma fada, ou princesa, talvez não conseguisse que a deixassem entrar com aquelas sandálias feias, seria melhor descalça.
Toda a sua alegria e ansiedade foram se dissipando, o entusiasmo se transformou em conjecturas e fantasias de como seria ela sentada naquele piano, e todos aqueles aplausos que ouvia a cada criança que se apresentava, eram para ela e mentalmente ela se curvava e agradecia, e tocava de novo atendendo aos pedidos de bis, sonhos somente sonhos...
Eram muitas crianças se apresentando, Susana foi ficando cansada e cochilou, até que a irmã da Marli a cutucou -acorda chegou a vez da Marli tocar. Pobre Marli, que detestava acordeom ou qualquer outro instrumento, ela errou no compasso, nas notas, e de tanto errar a professora puxou o aplauso da plateia para ela dar por encerrado todos os seus erros.  
A Audição foi nas palavras da mãe da Marli um fracasso, e um tempo depois os sonhos de ter uma musicista em casa foi terminado, com a Marli revelando que erraria em todas as audições.
O vestido de festa de Susana, voltou para o guarda-roupas depois de lavado e passado, mas durou pouco porque ela estava crescendo e ele encolhendo por ser de chita. Nunca teve sapatos de boneca nem um vestido de fada ou de princesa, mas quem se vestiu como tal, também nunca chegou a ser fada nem tão pouco princesa.
Mas a vida é assim o homem põe e Deus dispõe, ou como diriam os franceses “c’est la vie”

Léah                                                                                                                                                                Fim

24 comentários:

  1. Una bonita y a la vez triste historia por el deseo no cumplido de Susana, porque al fin y al cabo, a Marli le salió bien ya que no deseaba tocar ningún instrumento.
    Muy bonita la pintura, y un placer la lectura.
    Un beso Léah.

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    1. É verdade, mas a vida é assim sonhos se realizam outros não.
      beijinho.



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  2. Marli tinha bom coração por relacionar-se com a pobre Susana... não é fáci uma menina gostar de acordeão...
    Apraz-me pensar que alguém descobriu o desejo de Susana e pagou-lhe os estudos...
    Gostei muito do conto, Léah. Foi um deleite de leitura...
    Um fim de semana muito agradável...
    Um excelente Fevereiro.
    Beijos, querida Amiga.
    ~~~

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    1. Olá Majo: Essa é uma historia de ficção, assim sendo a imaginação corre solta.
      beijinhos,

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  3. Uma história muito bonita que adorei ler.
    Um abraço e bom fds

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    1. Que bom que gostou, agradeço o comentário.
      beijinhos,

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  4. Muito bonita essa história, Léah, primeiro me chamou a atenção a amizade das duas, com interesses diferentes, enquanto uma delas tinha tudo para se fazer, a outra nada do que gostaria. Mas eram amigas. Nem toda a criança gosta de aprender um instrumento, tem horas e horas de estudos, enquanto criança quer brincar, ou se mais madura, seu interesse está noutra coisa. Tem de partir da criança. Ser aquele 'gênio'. Houve uma época que era bem assim, eu lembro. Os pais queriam que os filhos aprendesses para tocar na sua velhice, conheço uma história assim. E o menino pediu para trocar o piano ganho, por um violão!! Continuou dando errado. A criatura foi para outras coisas.
    Adorei a pintura acima, me parece cobre, não? Aquela rosa ali no pé do vaso ficou linda!
    Beijo, querida amiga, estava com saudades de ler algo por aqui... mas entendo a demora.

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    1. As crianças quando não são influenciadas pelos pais, são diretas sem preconceitos, essa é uma historia inventada ficção, mas tive uma amiguinha rica de dar nó, e era minha melhor amiga, claro que eu não era paupérrima, mas diante dela poderia me considerar assim. Ela e eu ainda somos amigas só que ela empobreceu, o pai perdeu tudo.
      É um vaso de cobre, onde coloco os guarda-chuvas molhados, kkkk, agora ele ficou romântico com a rosa.
      beijinhos

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  5. Olá Léah!
    Gostei muito, muito desta história. Me levou à minha meninice.
    O meu pai tocava acordeão e viola.Sempre me quis ensinar, eu nunca quis aprender. Hoje, já sem ele junto de mim, "toco" apenas arrependimento. Há uns anos procurei uma escola de música e comprei uma viola. O que fiz com ela... um dia lhe contarei.
    Gostei do vaso e da rosa. Perfeitos!
    Beijo.

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    1. Que bom, mas eu quero muiiiiito que me contes esta história, estou já esperando.
      beijinhos.

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  6. Muito lindo esse conto Léah
    A vida nos leva por caminhos diferentes daquele que sonhamos mas nem por isso devemos ficar infelizes. Linda a amizade dessas duas crianças que pouco tinham em comum
    A pintura do vaso com a rosa ficou lindaaaa
    Beijos e um feliz domingo, querida Léah

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    1. Obrigada Gracita, é verdade a vida tem caminhos que nem imaginamos seguir, ou imaginamos. No meu caso sempre quis ser pintora e consegui, embora goste muito de arranhar umas musiquinhas no meu teclado eletrônico, mas é só para me divertir, kkk.
      Bom feriado, carnaval.
      beijinhos,

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  7. Sonhos e realidades distintas... que apesar de tudo, ainda aproximaram as duas amigas, de mundos tão distintos...
    Adorei o conto, Léah!
    E a pintura belíssima como sempre... simbolizando, certamente... a tal proximidade, de mundos tão diferentes...
    Beijinho! Feliz e inspirada semana...
    Ana

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  8. Amo quando entendem a relação que tento fazer entre a imagem e a historia. Obrigada pelo comentário.
    Boa semana pra você também
    beijinhos.

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  9. Linda pintura e lindo conto. Beijinho e tudo de bom para si Lésh.

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    1. Olá Sandra obrigada pela gentileza e comentário, tudo de bom para você também.
      beijinhos, léah

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  10. Olá, Léah!
    Uma aventura da pobre Susana nessa sua incursão pela música, a convite de sua amiga Marli, de outro nível social ao dela, seu cochilo durante a execução musical, além do mal gosto para vestir-se.
    Parabéns pelo belo conto.
    Um abraço.
    Pedro

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    1. Olá Pedro grata polo comentário.
      Abraço, Léah

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  11. é verdade c ést la vie Conto belo

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    1. Obrigada, tudo de bom para você.
      beijinhos, Léah

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  12. Nem todos nascem para as artes...
    Uma bela história, gostei muito.
    A sua tela é magnífica, parabéns.
    Continuação de boa semana, amiga Léah.
    Beijo.

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    1. Tens razão, mas o pior de toda esta questão, é quando o 'pseudo artista' não reconhece que não dá pra coisa e insiste, aí quem sofre são nossos ouvidos.
      beijinhos, Léah

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  13. A música, é como a poesia e a pintura, tem de nascer na alma do artista e nem todos têm esse maravilhoso dom.
    Lindo conto e uma bela tela.
    Bom fim de semana
    Beijinhos
    Maria de
    Divagar Sobre Tudo um Pouco

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  14. Concordo plenamente, obrigada pelo comentário.
    beijinhos, Léah

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