Minhas Pinturas

Seguidores

Minha lista de blogs

quarta-feira, 1 de junho de 2016

O Ciúme

                                        O fogo -acrílico sobre tela de madeira 30x 25



A mãe trabalhava na máquina de costura, às vezes até altas horas da noite, para ajudar na criação das quatro filhas, quando a quarta filha completou um ano, contratou uma moça para ajudá-la como babá, sua função consistia em  fazer a comidinha da criança, vigiar seus passos ainda trôpegos e os perigos aos quais uma criança se expõe por conta de sua inocência.  A babá  era uma moça carinhosa, mas muito estabanada, quebrava  louças, tropeçava em tudo,  se distraia até com uma mosca.
Numa tardinha de final de semana, o pai resolveu organizar um churrasquinho para a família, mas como não tinham churrasqueira improvisou no quintal num antigo fogão de ferro pousado no chão, uma grelha em cima brasas fumegantes e estava pronta a churrasqueira, o pai foi para a cozinha, partir a carne enquanto a mãe fazia outros quitutes para incrementar o churrasco. A recomendação feita à babá era sempre a mesma, - cuide  da neném- ...
De repente umas gritarias da babá e das crianças e da neném chorando quase sem fôlego, correm todos no maior susto.
-Ai dona Antônia, não sei como a neném  caiu no fogareiro, só me distraí um minuto!  tremia e chorava e gritava a babá...
Dona Antônia, a mãe, gritava meu Deus! Chorando em desespero, o pai com a criança já no colo e querendo consolá-la passou a mão alisando a queimadura e em lágrimas repetia - isso  não é nada, não é nada,-  o que só piorou o ferimento, a dor e os gritos desesperados da neném. O vizinho escutou a gritaria e correu para ajudar com seu taxi e levaram a criança para o hospital. 
O braço da criança queimado desde o punho até o antebraço, pelo calor do ferro do fogão e das brasas, mesmo caindo de bruços sobre o fogareiro sua camisolinha só ficou chamuscada, e a mãe guardou-a em uma caixa durante muitos anos e sempre que a via chorava, até  a filha acidentada já adulta, jogá-la fora para acabar com aquela dor inútil de sua mãe.
Hospital com atendimento precário, sem tecnologia, típico da época, pensando bem até hoje,  longas noites insones de dores, gemidos, lágrimas, dos pais e da criança. A babá despedida, e nunca mais quiseram outra. O tempo passou, mas a feia marca já cicatrizada no bracinho da neném ficou para sempre...
A mãe tendo que continuar com suas costuras, ocupava  as filhas mais velhas para se revezarem  tomando conta da neném. Quando esta função dada virou  obrigação para elas isso transformou-se em ciúmes e raiva.
“-Tudo é a neném, que já anda, já fala, e é uma chata que a gente tem que cuidar, ao invés de nos deixar livres para o que a gente gosta de fazer, temos que olhar a dondoquinha-“ diziam as três-.
Estes ciúmes cresceram junto com elas, e ao invés de serem amigas mesmo depois de adultas, viveram sempre rejeitando a irmã.
O ciúme é cego e vai açoitando o amor até matá-lo, ou quem sabe é um misto de desamor e rancor. Para eu aceitar isso no comportamento de crianças é fácil, mas em  pessoas adultas, que já têm discernimento e compreensão das dificuldades  da vida, não tem lógica,  é difícil, vejo o CIÚME como uma doença, é inexplicável e patológico. Principalmente na situação desta família, na opção que esta mãe teve de tomar.
Achava que um dia esse ciúme a competição e a rejeição em todos os momentos da minha vida com elas, pois a neném queimada fui eu, passaria e me amariam, mas nunca me perdoaram, pelo simples fato de ter nascido?  Ou me aceitaram como uma delas, a mais velha agiu assim  até morrer, infelizmente! E as outras duas vão pelo mesmo caminho!
Disso tudo me restou uma grande frustração por não ter uma IRMÃ,  aquela que seria unha e carne, amiga de fé, que dividiria problemas , tristezas e  alegrias. O braço queimado, nunca me causou problema algum, nem mesmo complexos, é só uma cicatriz,  o pior é saber que elas não conseguiram queimar o ciúme inútil  e deixá-lo cicatrizar para liberar seus corações.
É, são coisas dos seres humanos.
Léah

23 comentários:

  1. Una historia entrañable a pesar de los celos que al final han enturbiado la vida de quien los padecen, y también a quien van dirigidos.
    Creo que los celos es una enfermedad incurable que daña más al que los siente.
    Un gusto pasar por tus letras y esa pintura de barbacoa.
    Un beso Léah.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Querida Elda que bom que gostaste de minha pintura e crônica. Uma doença é como vejo o comportamento de quem tem ciúme.
      * Agora sei o que é guindo, gracias.
      beijinhos, Léah

      Excluir

  2. Mas que horror!! Babá... nunca as tive. Lembrei que quando eu tinha 3 anos, fiquei com a tal da empregada enquanto minha mãe foi ao centro da cidade. Pulei tanto no colchão que fui parar no hospital para levar pontos na cabeça kkk. A empregada na dela, incrível. Tenho a marquinha como recordação da vida. Mas na tua história nem as irmãs serviram pra nada. Mas é na família que acontecem essas coisas, mana.
    Não quero dizer que não exista o amor familiar; ele está presente, mas não o suficiente para manter as pessoas unidas e em harmonia por muito tempo. Primeiro é o eu; depois continua sendo o eu. E sobra pouco pra dividir. E no primeiro tropeço, começa a desintegração.
    E é nesse núcleo que nasce o ciúme, a inveja, a avareza, o egoísmo, a intolerância, a arrogância.
    Teu ótimo texto passou como um filme. Revela que o ser humano não muda na essência. Já viste o filme 'Parente serpente'? Pois é...veja!
    A tua 'obra', belíssima, fico a imaginar a criança ali... Cruzes.
    Beijo grande.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Taís querida:
      *Tenho certeza de que a incompetência das babás está na falta de preparo para a função.
      *A cicatriz é minha marca registrada, kkkk...
      *Os parentes são assim mesmo, como moram fora do Rio, só aparecem aqui no Natal, fora isso é telefone, por isso, prefiro as amigas.
      *Vou procurar este filme no YOUTUBE, e vê-lo.
      *Não, por favor, não fique a imaginar uma criança ali naquele fogaréu, deve ter sido uma cena Dantesca, Isto se apagou de minha memória,talvez por ser muito pequena,Graças a Deus, nem das dores eu lembro.
      *Obrigada pelo elogio à obra, ela foi pintada e engavetada, há bastante tempo.
      beijinhos, Léah

      Excluir
    2. Parente a gente não escolhe! É o pacote grudado quando se nasce. Ou presta ou não. Certas famílias (muitas) só são bonitas em porta-retrato. Muitas pessoas sentem culpa ao constatar isso. Uma pessoa não agirá na família de um jeito e fora dela de outro. Ela é igual sempre. No filme que te falei, o final é surpreendente - foi feito algo, após um Natal - para nunca mais se encontrarem kkkkk
      bj

      Excluir
  3. Oi, Léah!
    Adorei sua visita e comentári em Letras Que Se Movem, obrigada. Também gosto muito do seu e não sei se reparou mas eu levei o selinho pra lá.
    Bjs!

    ResponderExcluir
  4. Sandra que bom é fazer novas amigas, a vida fica mais colorida.
    Obrigada pelo selinho, você é muito delicada.
    beijinhos, Léah

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não tem do que agradecer, Léah!
      Gosto muito dos seus trabalhos; pinturas e textos.
      Bjs e bom final de semana!

      Excluir
    2. Pois é amiga Deus sabe o que faz,
      a gente está sempre pedindo sem saber o resultado, é melhor sonhar em silêncio e deixar acontecer,rsrs... (estou me referindo a pedir irmãs).
      beijinhos, Léah

      Excluir
  5. Esse ciúme em adulto com origem em criança, infelizmente é muito comum. Acho que é instintivo e deixa marcas como as do fogo...
    Gostei da sua tela, mas é pena que ao ampliá-la ela fique ainda mais pequena, impedindo de apreciar a sua beleza em toda a sua extensão.
    Léah, tem um bom fim de semana.
    Beijo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Jaime o ciúme em criança dá para entender, mas em adulto é egoísmo, e querer tomar posse e escravizar a outra pessoa, é intolerável.
      Essa tela é pequena e se ampliar os pixels, deformam a imagem.
      Obrigada pelo comentário e elogio.
      beijinhos, Léah

      Excluir
  6. Querida Léah, sou filha única e sempre desejei ter irmãos, mas perante o que nos contou, acho que afinal foi uma felicidade.
    O importante é que a amiga superou este trauma da melhor maneira possível e as suas irmãs é que perderam a oportunidade de usufruir da sua companhia.
    Agora a sua família é o seu marido e seus filhos e o passado já lá vai, não é verdade ?
    A tela é muito expressiva e forte, tal como a sua vivência.

    Um beijinho e bom final de semana

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Também sou filha única e ficava triste quando criança mas hoje sinto que foi uma benção pois vejo irmãos virando as costas pra irmãos...brigas por causa de herança...enfim, complicado!

      Excluir
    2. Também sou filha única e ficava triste quando criança mas hoje sinto que foi uma benção pois vejo irmãos virando as costas pra irmãos...brigas por causa de herança...enfim, complicado!

      Excluir
    3. Querida Fê: Pois é, eu e sinto como tal, como filha única, e sou muito feliz com meu marido e filhos, temos muita afinidade e carinho, o ciúme não entra aqui em casa, graças a Deus.
      Obrigada por passar por aqui,
      Fique bem, muita paz.
      beijinhos, Léah.


      Excluir
  7. Bonjour ma chère amie,

    Votre récit m'a beaucoup émue... Je suis triste de ce qu'il vous était arrivé et ce qui est le plus triste c'est que cette brûlure fut le starter d'une jalousie indélébile dans votre fratrie.
    De mon côté, je n'ai pas eu d'accident malheureux, si n'est celui d'être née alors que je ne n'étais pas désirée.
    J'étais le vilain petit canard de la famille. Mes soeurs ont reçu de l'affection, moi jamais. J'ai été éloignée dès l'âge de 7 ans et mes soeurs n'ont jamais témoigné quelconque sentiment envers moi, même aujourd'hui, de longues années plus tard... Je ne les connais pas et je ne vois plus non plus mes parents depuis de longues années. Ils ne connaissent pas mes enfants et petits-enfants.
    Je pense que la peinture est un lieu de refuge où je retrouve une certaine sérénité.
    Je comprends le chagrin et la peine que vous pouvez ressentir...
    Je vous souhaite un excellent weekend.

    Gros bisous ♡

    ResponderExcluir
  8. Chère Martinealison
    Des sentiments de sœurs et les parents devrait être plus élevé, sans barrières,et voilà pourquoi nous sommes nés dans la même famille , mais cela est une fiction! J'étais aussi désolé d'apprendre que vous avez eu une grande tristesse dans la vie. En regardant ses peintures si gai, pensé que vous étiez une personne libre de ces souffrances, beaucoup fait mal l'âme. Mais je suis d'accord avec vous quand vous dites que l'art nous aide oublier les douleurs qu'elle nous récompense toujours en quelque sorte, je sais bien que les personnes qui me ont fait du mal dans le passé sont malheureux, elles ont perdu la possibilité de choisir la voie de l'amour et de l'amitié Ils font sais pas comment aimer, leurs valeurs sont l'égoïsme, l'envie. Peut-être un jour elles se réveiller un jour ...
    J'aimais te parler.
    Je vous souhaite beaucoup de force et que Dieu vous récompenserai beaucoup de joies pour toujours.
    beaucoup de joies toujours
    baisers, l'ami Léah Léah

    ResponderExcluir
  9. Minha amiga, infelizmente conheço vários casos em que existe muito ciúme e má vontade entre irmãos. Sou filha única e sinceramente, para ter irmãos assim é melhor não os ter.
    Adorei a tela!
    Beijinhos
    Maria

    ResponderExcluir
  10. O que vale é que o Henrique e eu formamos uma família unida e amorosa,e com amigos verdadeiros, Graças a Deus. O que faltou nelas foi amor, o que sobrou foram egoísmo e inveja.
    Mas Deus fechou uma porta e abriu-me várias janelas.
    Grata pelo comentário elogioso e pela visita.
    beijinhos
    Léah

    ResponderExcluir
  11. Léah, esse tema de crônica tem sido objeto de estudo pela psicanálise, filosofia e pela literatura. É mesmo um sentimento invencível. Penso que quem o tem, dele não se livrará. “Vi” o ciúme no rosto de tantos amigos e parentes, e também vi que o passar do tempo nada fez para “curá-los”.
    Parabéns pela bela crônica.
    Abraço.

    ResponderExcluir
  12. Olá Pedro, o bom é que estou livre dessa doença delas.
    Elas entram na minha casa participam das reuniões, mas as portas do meu coração, e qualquer intervenção na minha vida familiar esta fechada trancada a sete chaves.
    Obrigada pelo comentário elogioso.
    grande abraço, Léah

    ResponderExcluir
  13. Vim à procura de mais... mas eu volto...
    Léah, tem um bom resto de semana.
    Beijo.

    ResponderExcluir
  14. Oi Jaime: Demorei, mas cá estou.
    beijinhos. Léah

    ResponderExcluir