Minhas Pinturas

Seguidores

Minha lista de blogs

quarta-feira, 31 de agosto de 2011




                                      (aquarela)
Nosso amor


Guardo em mim numa caixinha de cetim nossa calmaria

Guardo em mim num cofre forte nossos raios e trovões

Guardo em mim entre lençóis e almofadas nossos desejos

Guardo em mim com cuidados, nossos segredos

Guardo em mim numa estrela que colhi nossas esperanças

Já não guardo em mim nossos sonhos perdidos, calcificados

Só guardo em mim as lembranças do nosso imenso amor

Leah



quarta-feira, 24 de agosto de 2011

OS TAMANCOS




"Inverno" (óleo sobre tela 40 x 40)


Era um tempo muito difícil, muita pobreza era usual andarmos de tamancos, sapato só para passear uns vestidinhos de tecido barato feitos por minha mãe que ficavam assim como o par de sapatos guardados a espera de que surgisse um passeio qualquer, que também era raro.

Nossos tamancos, meu e de minhas irmãs eram comprados no armazém da esquina. Um dia meu pai trouxe não sei de onde um par de tamancos com sola de madeira mas em cima era feito com pele de cabrito, uma lindeza!

Aquele sim era um tamanco digno de ir a qualquer passeio, ficou a espera num pequeno armário junto com o par de sapatos, mas todos os dias eu ia visitá-lo, alisá-lo experimentá-lo.

Perguntava sempre a minha mãe:

- Posso usar o tamanco novo hoje?

-solamente cuando el zueco viejo terminar (Somente quando o tamanco velho acabar) -

Por mais que eu arrastasse aqueles tamancos velhos e odiosos na calçada áspera ele resistia, inteiro, intacto, puxava a correia dura e amarela para ver se arrebentava, mas que nada, eu achava que ele tinha inteligência e sabia das minhas torpes intenções de acabar com ele!

Acabei cansando desta luta e envolvi-me com outra preocupação que era ir a casa de meu vizinho que tinha um velocípede onde eu me fartava de pedalar e ele menor que eu não sabia usar os pedais do brinquedo só andava no bicho se fosse empurrado, ficava esperando que eu me dignasse a empurrá-lo

Numa dessas empurradas meu tamanco arrebentou! Ora viva!

Larguei velocípede, meu vizinho chorando pois havia trocado com ele:

- Dou três voltas e depois te empurro duas.-

Só que o tamanco arrebentou na primeira, e eu corri pra casa em busca do tamanco novo.

Decepção! Meus pés cresceram e os tamancos não!

Fui com minha mãe até o armazém da esquina aos prantos comprar outro tamanco igual ao que havia arrebentado minutos antes. E aquela lindeza pela qual tanto esperei foi para uma vizinha menor que eu, com pés menores que os meus, e ela nem ligava para eles eu os vi muitas vezes jogados no quintal na chuva.


Naquela época o fato me causou sofrimento e decepção, mas eu era criança e não tinha noção do que realmente estava acontecendo. Entretanto tudo que acontece em nossa vida serve como ensinamento. Dentro de alguns limites de bom senso viver o presente com o que temos conscientes de que os bens materiais estão aí para nos dar prazer e se o temos devemos usá-los usufruir deste prazer, ao invés de ficar guardando para o futuro que nem sabemos se teremos.

O essencial é viver o presente e deixar a vida fluir.



Texto Léah MorMac


quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O RELÓGIO






óleo sobre madeira
                                                                            ( 30 x 45)- por LéahMorMac

O relógio era pequeno com umas pedrinhas que brilhavam e uma corrente dourada que se atava certinho em meu braço de menina magrinha de 6 anos. Eu não conseguia tirar os olhos dele era para mim uma jóia que me fora emprestada até chegarmos à casa de Dona Mira.
D. Celeste era nossa vizinha rica que queria me crismar, falava isso todos os dias:
– Você vai ser minha afilhada, vou crismá-la, e ai vais ter de me chamar de dindinha...

Realmente ela me crismou, porém, só quando eu já tinha 14 anos de idade, aí não dava mais para chamá-la de dindinha já havia há muito me acostumado a chamá-la pelo seu nome.

Dona Celeste levou-me para passear na casa de sua comadre que criava sua filha mais nova e enchia as outras 3irmãs de presentes e jóias, mas eu menina pobre não tinha jóias nem sabia do valor delas, apenas achava-as bonitas, com todo aquele brilho das pedrinhas.

Naquele dia saímos à tardinha num táxi, ajeitei-me no banco traseiro ao lado dela bem próximo à janela, mas a paisagem que se desenrolava lá fora não me interessava eu só queria admirar o relógio era tão lindo e era meu naqueles momentos que gostaria fossem eternos.
– Chegamos agora você tire o relógio, a Mira deu-o de presente para a Miriam e não pode vê-lo em você!
Minha garganta sufocou um soluço quando ela guardou-o em sua bolsa, dentro de uma mini caixinha azul toda acolchoada.

Entramos na casa e fui completamente ignorada fiquei encostada na parede do salão era tudo muito luxuoso cadeiras de encosto alto, uma enorme mesa de jantar, cristaleira cheia de copos e taças coloridas, e vinda não sei de onde surgiu à minha frente Miriam, a dona do precioso relógio, comendo uma fruta cortada em forma de meia lua que eu nunca tinha visto, sua polpa vermelha e caudalosa escorriam por seu queixo quando ela a mordia, indo parar na gola cheia de rendinhas de seu vestido, parou na minha frente examinou-me com curiosidade virou as costas e sem uma palavra foi para dentro onde as duas comadres discutiam calorosamente sobre uma festa de aniversário, até que a Miriam, Dona Celeste e Dona Mira apareceram na sala.

– Quem é essa menina Celeste?
– Ah, é a filha de minha vizinha pobre.
– E porque a trouxeste?
– Porque eu quis.
Eu saí da parede onde estava encostada e falei, achando que estava ajudando:
– Não, foi só para me emprestar o relógio.

Pronto o caldo estava entornado, a Miriam já estava com o relógio no pulso, e a gola do vestido ainda suja de melancia, perguntou com jeito de raiva:
– Que relógio, o meu?

Senti medo e instintivamente achei por bem ficar calada, minha madrinha sem tirar os olhos de mim pulou rápida numa resposta:
– Claro que não! Ela está falando do meu, esse aqui, coloquei no braço dela só dentro do táxi, para ela ouvir o tique-taque.
– Ah! Ainda bem, esse relógio foi muito caro você nem devia tê-lo trazido, a Miriam só vai usá-lo sábado na festa de seu aniversário. Vá guardá-lo Miriam.
– Depois, Dinha vou ficar com ele até a hora de dormir hoje.

Surgiu daí uma discussão entre as três e a menina começou a chorar e gritar que não iam tirar o relógio era dela e pronto. Deitou- se no chão esperneou até conseguir o que queria.
Voltei a encostar-me a parede achando que havia feito algo de muito errado e a qualquer momento ia ser castigada. Toda aquela tempestade passou num piscar de olhos assim que D. Mira falou a frase milagrosa:
– Está bem querida fique com ele no pulso até a hora de dormir! Mas cuidado!
Se fosse eu em minha casa teria levado uma sova, mas o que estou eu dizendo, como eu ia fazer essa birra, nunca teria relógio ou festa de aniversário, ou vestido com golas de renda, nem sequer comia melancia, fruta que na época era caríssima!



Anos se passaram, tive relógios, muitos vestidos bonitos, comi muita melancia, mas não dou valor a jóias, ou roupas de grife. Gosto de conforto, mas não de luxo, entretanto como uma mariposa presa à luz quando vejo uma bijuteria, jóia, ou roupa com enfeites que brilham fico meio hipnotizada, não as compro, mas gasto um bom tempo admirando-as.

Demorei muitos anos para descobrir o motivo de minha fixação por coisas que brilham, não sou psicóloga, porém acho que é uma referência ao trauma daquele fato, tão longínquo de minha infância.

Texto Léah MorMac

Em 18/07/2011

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Fim de festa





óleo sobre tela "Margaridas"
                                                               40 x 35 -Léah MorMac
  
 Fim de festa


È bom ver novas plagas, novos rostos, outras culturas.
Despreocupar-se, se esticar na cama, dormir ao meio dia.
Não ter horário, não ver TV, não pensar em computadores.
Andar sem rumo, sem horas marcadas ou rostos tensos.
Mas melhor que tudo é a hora de voltar, poder e ter pra onde voltar.
Fim de festas, fim de férias, viagens zeradas.
Como é bom chegar! Sentir o aconchego do seu cantinho, rever seus animais, seu jardim, seu lugar, sua caminha, sua cozinha, o seu tempero, sua comidinha, sua gente.
Sentir que se tem um lugar que é seu retrato, seu jeito, seu ninho.
É bom voltar, poder voltar ao seu velho lar.
È bom voltar ver a beleza de seu País, sem querer comparar com outros, visto que o amor não se compara, nem se mede.
O que se mede é a espera, e como sempre soube que o melhor da festa é esperar por ela, então o melhor será esperar as próximas férias.

texto Léah MorMac