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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O RELÓGIO






óleo sobre madeira
                                                                            ( 30 x 45)- por LéahMorMac

O relógio era pequeno com umas pedrinhas que brilhavam e uma corrente dourada que se atava certinho em meu braço de menina magrinha de 6 anos. Eu não conseguia tirar os olhos dele era para mim uma jóia que me fora emprestada até chegarmos à casa de Dona Mira.
D. Celeste era nossa vizinha rica que queria me crismar, falava isso todos os dias:
– Você vai ser minha afilhada, vou crismá-la, e ai vais ter de me chamar de dindinha...

Realmente ela me crismou, porém, só quando eu já tinha 14 anos de idade, aí não dava mais para chamá-la de dindinha já havia há muito me acostumado a chamá-la pelo seu nome.

Dona Celeste levou-me para passear na casa de sua comadre que criava sua filha mais nova e enchia as outras 3irmãs de presentes e jóias, mas eu menina pobre não tinha jóias nem sabia do valor delas, apenas achava-as bonitas, com todo aquele brilho das pedrinhas.

Naquele dia saímos à tardinha num táxi, ajeitei-me no banco traseiro ao lado dela bem próximo à janela, mas a paisagem que se desenrolava lá fora não me interessava eu só queria admirar o relógio era tão lindo e era meu naqueles momentos que gostaria fossem eternos.
– Chegamos agora você tire o relógio, a Mira deu-o de presente para a Miriam e não pode vê-lo em você!
Minha garganta sufocou um soluço quando ela guardou-o em sua bolsa, dentro de uma mini caixinha azul toda acolchoada.

Entramos na casa e fui completamente ignorada fiquei encostada na parede do salão era tudo muito luxuoso cadeiras de encosto alto, uma enorme mesa de jantar, cristaleira cheia de copos e taças coloridas, e vinda não sei de onde surgiu à minha frente Miriam, a dona do precioso relógio, comendo uma fruta cortada em forma de meia lua que eu nunca tinha visto, sua polpa vermelha e caudalosa escorriam por seu queixo quando ela a mordia, indo parar na gola cheia de rendinhas de seu vestido, parou na minha frente examinou-me com curiosidade virou as costas e sem uma palavra foi para dentro onde as duas comadres discutiam calorosamente sobre uma festa de aniversário, até que a Miriam, Dona Celeste e Dona Mira apareceram na sala.

– Quem é essa menina Celeste?
– Ah, é a filha de minha vizinha pobre.
– E porque a trouxeste?
– Porque eu quis.
Eu saí da parede onde estava encostada e falei, achando que estava ajudando:
– Não, foi só para me emprestar o relógio.

Pronto o caldo estava entornado, a Miriam já estava com o relógio no pulso, e a gola do vestido ainda suja de melancia, perguntou com jeito de raiva:
– Que relógio, o meu?

Senti medo e instintivamente achei por bem ficar calada, minha madrinha sem tirar os olhos de mim pulou rápida numa resposta:
– Claro que não! Ela está falando do meu, esse aqui, coloquei no braço dela só dentro do táxi, para ela ouvir o tique-taque.
– Ah! Ainda bem, esse relógio foi muito caro você nem devia tê-lo trazido, a Miriam só vai usá-lo sábado na festa de seu aniversário. Vá guardá-lo Miriam.
– Depois, Dinha vou ficar com ele até a hora de dormir hoje.

Surgiu daí uma discussão entre as três e a menina começou a chorar e gritar que não iam tirar o relógio era dela e pronto. Deitou- se no chão esperneou até conseguir o que queria.
Voltei a encostar-me a parede achando que havia feito algo de muito errado e a qualquer momento ia ser castigada. Toda aquela tempestade passou num piscar de olhos assim que D. Mira falou a frase milagrosa:
– Está bem querida fique com ele no pulso até a hora de dormir! Mas cuidado!
Se fosse eu em minha casa teria levado uma sova, mas o que estou eu dizendo, como eu ia fazer essa birra, nunca teria relógio ou festa de aniversário, ou vestido com golas de renda, nem sequer comia melancia, fruta que na época era caríssima!



Anos se passaram, tive relógios, muitos vestidos bonitos, comi muita melancia, mas não dou valor a jóias, ou roupas de grife. Gosto de conforto, mas não de luxo, entretanto como uma mariposa presa à luz quando vejo uma bijuteria, jóia, ou roupa com enfeites que brilham fico meio hipnotizada, não as compro, mas gasto um bom tempo admirando-as.

Demorei muitos anos para descobrir o motivo de minha fixação por coisas que brilham, não sou psicóloga, porém acho que é uma referência ao trauma daquele fato, tão longínquo de minha infância.

Texto Léah MorMac

Em 18/07/2011

9 comentários:

  1. Oi amiga até chorei com esta estoria. E me alegrei vendo a beleza de sua tela.
    beijinhos,
    Carla Rodriguez

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  2. Querida amiga uma tela lindissima e uma história que me emocionou.
    Esse relógio foi algo muito especial, que deixou em si uma doce recordação.
    Hoje vim especialmente também para agradecer o seu carinho por ter comemorado comigo o aniversário do meu paizinho, deixando a sua terna e preciosa mensagem.
    “Se planta uma semente de amizade, recolherá um ramo de felicidade (Lois L. Kaufman)”
    Bom fim de semana
    Beijinhos
    Maria

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  3. Linda tela e gostei demais desta estoria e da relação que vc. faz com os objetos que brilham, é muito interessante, mas quem brilha mesmo é voce com essa obra, seus textos e poesias.
    Beijos muitos beijos.
    Natalia

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  4. Há coisas que só ao abrirmos a memória nos parecem explicáveis.

    Gostei do texto e da mensagem implícita que transmite.

    Beijo

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  5. Olá, bela tela...Bela história...Espectacular....
    Cumprimentos

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  6. olá amiga!

    começo pela pintura sobre madeira que gostei. feliz de quem tem o dom de pegar nos pincéis e tintas e dar azo à sua criatividade. são momentos de interiorização em que o artista faz parte integrante da peça.
    quanto à estória, gostei muito da narrativa escorreita e que muito bem descreveu como factos que nos acontecem enquanto crianças e jovens nos marcam e se reflectem pela vida fora.

    Beijo e minha gratidão pela tua companhia lá na "serra...".

    Kandandos e Ubuntu para todos

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  7. Amiga Leáh fiquei feliz por ter gostado de viajar comigo até Belmonte, só não queria deixá-la tristinha minha amiga, mas compreendo que a saudade de alguém de quem gostamos muito e já não está entre nós, toca sempre o nosso coração.
    Beijinhos
    Maria

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  8. Querida:
    existem recordações prazeirosas em nossas vidas que gostamos de lembrar, mas voce consegue escrevê-las com leveza e prende nossa atenção até o final do texto. Quanto a tela, ficou ótima com boa técnica e ótimas cores.
    Parabéns a completa artista.
    bjs.
    Alex

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  9. Parabéns, você pinta muito bem!
    Obrigado por seguir o meu blog.

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